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terça-feira, 23 de novembro de 2010


Em relação aos sonhos, há necessidade de se notar que durante muito tempo, os terapeutas comportamentais ignoraram o assunto. Como os clientes frequentemente relatam sonhos, provavelmente o que ocorreu foi que, por falta de um modelo clínico adequado e também para evitar a punição por parte da comunidade científica, os terapeutas têm se esquivado de relatar como trabalham com os sonhos de seus clientes. Entretanto, através do relato de um sonho, posso ter acesso a fatos da história passada ou da história atual, que diretamente não seriam explicitados ou demorariam muito mais tempo para sê-lo. Este é um exemplo de como o sonho pode funcionar como um instrumento de coleta de dados na situação terapêutica.
Devemos nos lembrar que relatar um sonho é um comportamento manifesto que descreve um outro - o sonhar - comportamento encoberto, e que existem muitas relações comportamento-comportamento que precisam ser entendidas pela análise funcional. Por exemplo, o cliente que sonha (encoberto) com alguma coisa de sua infância e ao acordar, a partir dos SDs propiciados pelo sonho, se lembra (encoberto) de fatos que realmente ocorreram e que ele se esquecera, está evidenciando uma relação encoberto-encoberto. Ao relatar (comportamento aberto) tais fatos na situação terapêutica, o cliente pode, com o auxílio do terapeuta, chegar à discriminação de certas contingências, que sem o sonho poderia demorar mais tempo. Como se percebe, os sonhos são um dos instrumentos, como são também as fantasias, que o terapeuta utiliza para auxiliar seu cliente a chegar ao auto-conhecimento. Quando o cliente consegue, junto com o terapeuta, interpretar o próprio sonho significa, em última análise, que ele está conseguindo analisar as contingências que controlam seu comportamento. É importante aqui esclarecer que o terapeuta comportamental interpreta os sonhos de seus clientes apenas fazendo perguntas, como por exemplo: "o que você acha que seu sonho tem a ver com o que está ocorrendo em sua vida no momento?" ou "por que será que você sonhou com isso esta semana?". O terapeuta comportamental, devemos repetir, não considera o sonho algo simbólico ou um disfarce de alguma coisa. É um comportamento modelado por contingências e como tal, tem que ser analisado e entendido.
Em resumo, a tarefa do terapeuta é justamente criar condições para que o cliente entre em contato com as contingências atuantes em sua vida, para que consiga ficar sob controle de si mesmo e não de contingências que frequentemente nem são identificadas. A utilização dos encobertos, sejam sonhos, fantasias ou sentimentos, tem se mostrado um recurso extremamente rápido e eficaz para se chegar a estes resultados.
Gostaria, finalmente, de me referir a algumas das funções que os sonhos, ou seus relatos podem adquirir durante o processo terapêutico, funções estas que precisam ser analisadas para que se estabeleça uma boa comunicação entre cliente e terapeuta. Por exemplo, o relato de um sonho pode ser utilizado pelo cliente como um recurso metafórico ou como esquiva. Isto é, falar de algo aversivo através do relato de um sonho pode diminuir a aversividade da situação ou do tema a ser exposto. Relatar um sonho pode ser a forma de exprimir um sentimento, de se esquivar de temas ou mesmo uma forma de agredir o terapeuta ou testar seu nível de aceitação ou empatia. O cliente que diz: "estou sentindo que hoje você está meio chateado", ou "sonhei que você faltava na hora da minha terapia e nem me avisava..." ou "imagino como deve ser chato para você ter que ficar me ouvindo..." está fornecendo estímulos discriminativos para o terapeuta avaliar seu próprio comportamento, aberto e encoberto, ou pode também estar tentando obter mais reforçamento.
Já ouvi algumas vezes uma frase que penso que muitos outros terapeutas também ouviram. Algo como: "é estranho e triste, que você, que é a única pessoa que me entende, eu tenha que encontrar com hora marcada e ainda pagar por isto".
O que significa essa frase? Como o terapeuta pode utilizá-la de forma eficaz? Penso que o primeiro passo é criar condições para que o cliente perceba a sua relação com o terapeuta como uma amostra de um tipo de relacionamento: honesto, afetivo, verdadeiro. O segundo passo é levar o cliente a perceber que ele pode vir a ter relações semelhantes em sua vida, isto é, levar o cliente a generalizar uma forma de comportamento interpessoal que lhe é reforçadora.

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